A Listeria monocytogenes é um microrganismo patogênico amplamente distribuído no ambiente, podendo ser encontrada no solo, água, matéria orgânica em decomposição e superfícies industriais. Na indústria de alimentos, destaca-se como um perigo biológico relevante devido à sua capacidade de sobreviver em ambientes úmidos, formar biofilmes e multiplicar-se sob refrigeração.
No contexto da indústria de atomatados — como polpa de tomate, extrato, molho e tomate pelado — o risco associado a Listeria apresenta características específicas que devem ser avaliadas tecnicamente dentro da análise de perigos do APPCC.
Características do produto e impacto no risco
Os derivados de tomate são, em geral, alimentos naturalmente ácidos, com pH variando entre 4,0 e 4,5. Essa condição é um fator intrínseco de controle, pois a multiplicação de Listeria monocytogenes é inibida em pH inferior a 4,4. Além disso, os atomatados normalmente passam por tratamento térmico (pasteurização ou esterilização comercial), o que elimina células vegetativas do microrganismo.
Dessa forma, quando o processo térmico é devidamente validado e o pH é mantido dentro das especificações, o risco de presença do patógeno no produto final é considerado baixo.
Principal fonte de risco: contaminação pós-processo
Embora o produto apresente barreiras naturais e tecnológicas eficazes, o risco mais relevante está relacionado à contaminação ambiental e à possível recontaminação após o tratamento térmico, especialmente nas áreas de envase.
Listeria monocytogenes possui elevada capacidade de persistência ambiental, podendo colonizar:
- Ralos e sistemas de drenagem
- Pisos e áreas úmidas
- Equipamentos de difícil higienização
- Estruturas com condensação
- Pontos com acúmulo de resíduos orgânicos
A formação de biofilmes aumenta a resistência do microrganismo aos procedimentos de higienização, tornando essencial a implementação de um Programa de Monitoramento Ambiental baseado em risco.
Pontos Críticos na indústria de atomatados
Os principais pontos de atenção incluem:
- Área de descarga ao ar livre, devido ao contato com solo e matéria orgânica
- Área de seleção e manipulação da matéria-prima
- Área de envase, especialmente após esterilização
- Lavagem de tambores ou embalagens retornáveis
- Controle de condensação em ambientes fechados
A segregação entre áreas sujas e áreas limpas, o controle de fluxo de pessoas e materiais, e a higienização validada são medidas fundamentais para prevenção.
Enquadramento no Sistema APPCC e FSSC 22000
Na maioria das indústrias de atomatados esterilizados, Listeria monocytogenes é controlada principalmente por:
- PCC: tratamento térmico validado, com monitoramento rigoroso
- PPRO: controle sistemático de pH
- Programas robustos de Pré-Requisitos (BPF e higienização)
- Monitoramento ambiental estruturado, baseado em análise de risco
- Zoneamento higiênico e controle de fluxo
A gestão adequada desses controles garante conformidade com os requisitos da segurança de alimentos e reduz significativamente o risco de contaminação do produto acabado.
Dentro do esquema FSSC 22000, o controle de Listeria está fortemente relacionado ao requisito adicional de monitoramento ambiental, especialmente quando há produção de alimentos prontos para consumo.
Resumindo: Listeria monocytogenes na indústria de atomatados não é considerado um perigo intrínseco elevado devido ao pH ácido do produto e ao tratamento térmico aplicado. Entretanto, o microrganismo representa um risco ambiental significativo, principalmente em áreas úmidas e no pós-processamento.
Leia também:
Perigos químicos na indústria de atomatados: quais são e como controlar






