Notice: A função register_taxonomy foi chamada incorretamente. Os nomes das taxonomias devem ter entre 1 e 32 caracteres no máximo. Leia como Depurar o WordPress para mais informações. (Esta mensagem foi adicionada na versão 4.2.0.) in /var/www/html/wp-includes/functions.php on line 6131 Complementaridade entre ISO 22000 e ISO 9001 – Food Safety Brazil

Complementaridade entre ISO 22000 e ISO 9001

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A gestão da qualidade no setor alimentício exige uma compreensão clara de dois pilares fundamentais: a garantia de que o produto não cause dano ao consumidor (qualidade intrínseca) e a capacidade de atender, de forma consistente, às expectativas do mercado (qualidade percebida).

Nesse contexto, as normas ISO 22000 e ISO 9001 não devem ser vistas como alternativas, mas como instrumentos complementares que atuam em níveis distintos e sinérgicos dentro das organizações.

A ISO 22000 possui um foco técnico e específico na segurança dos alimentos, ou seja, naquilo que se convencionou chamar de inocuidade.

Trata-se da garantia de que alimentos e bebidas não apresentem perigos significativos ao consumidor, o que implica o controle rigoroso de contaminantes de natureza química, física e microbiológica.

Essa norma parte do princípio de que a qualidade, no setor alimentício, começa pela ausência de risco sanitário, por isso, seus requisitos são diretamente orientados à identificação, avaliação e controle de perigos ao longo de toda a cadeia produtiva, desde a matéria-prima até o consumo final.

Um dos elementos centrais que conferem robustez à ISO 22000 é a incorporação dos princípios do APPCC/ HACCP (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle).

Esse modelo está profundamente arraigado na seção 8 da norma ao tratar a gestão de perigos, estabelecendo uma abordagem sistemática e preventiva, baseada na antecipação de riscos, e não apenas na verificação do produto final.

Ao exigir a definição de pontos críticos de controle, limites operacionais, monitoramento contínuo e ações corretivas, a norma impõe um nível de rigor técnico elevado, tornando-a altamente específica para o tema de food safety. Nesse sentido, seu escopo é mais restrito, porém mais profundo.

Por outro lado, a ISO 9001 adota uma abordagem deliberadamente mais ampla da qualidade, especialmente, porque não é uma norma focada apenas no setor alimentício, mas há todos os segmentos.

Seu objetivo não é tratar de um tipo específico de risco, mas estruturar a organização para garantir a entrega consistente de produtos e serviços conformes (atendimento de especificações), promovendo a satisfação do cliente.

Para isso, a norma abrange tanto a qualidade intrínseca, relacionada às características técnicas do produto, quanto a qualidade percebida, que envolve a experiência do cliente, prazos, confiabilidade e atendimento a expectativas explícitas e implícitas.

Diferentemente da ISO 22000, a ISO 9001 não estabelece requisitos técnicos específicos para a segurança dos alimentos, no entanto, afirmar que ela não aborda o tema seria impreciso.

A norma exige o cumprimento de requisitos legais, regulatórios e contratuais, especialmente no que se refere à análise de contexto organizacional, ao desenvolvimento de produtos e à análise crítica de requisitos, especificações e contratos.

Além disso, estabelece a necessidade de identificar e tratar riscos e oportunidades associados aos processos, assegurando que tais requisitos sejam considerados de forma sistemática e integrada ao sistema de gestão da qualidade.

Em organizações do setor alimentício, a segurança dos alimentos não é opcional, mas uma exigência básica de mercado e de legislação. Portanto, ainda que de forma indireta, a food safety passa a ser necessariamente incorporada ao sistema de gestão da qualidade estruturado pela ISO 9001, pois está intrinsecamente ligada à conformidade do produto.

Essa distinção revela uma diferença conceitual importante: enquanto a ISO 22000 trata da segurança como condição mínima, não causar dano, a ISO 9001 trata da qualidade como capacidade de atender requisitos amplos e gerar satisfação.

A primeira responde à pergunta “o produto é seguro?”, enquanto a segunda amplia o escopo para “o produto atende plenamente ao que foi prometido e esperado?”. São perspectivas diferentes, porém inseparáveis na prática.

Dessa forma, as duas normas se complementam de maneira natural: a ISO 22000 aprofunda o controle técnico dos riscos sanitários, garantindo a base da qualidade intrínseca sob o ponto de vista da inocuidade, enquanto a ISO 9001 fornece a estrutura gerencial necessária para assegurar consistência, padronização, melhoria contínua e foco no cliente.

Quando implementadas em conjunto, as ISOs 22000 e 9001 permitem que a organização não apenas evite falhas críticas, mas também eleve seu nível de desempenho global.

A integração entre essas normas é facilitada pelo alinhamento estrutural das normas ISO modernas, baseadas na Estrutura de Alto Nível (HLS), que organiza os requisitos segundo a lógica do ciclo PDCA (Plan-Do-Check-Act). Nesse modelo,

  1. As etapas de planejamento (Plan) envolvem a análise de contexto, grupos de interesse (stakeholders) definição de objetivos, identificação e tratamento de riscos e oportunidades;
  2. A execução (Do) contempla a operação e o controle dos processos;
  3. A verificação (Check) abrange o monitoramento, medição, auditorias e análise crítica pela direção;
  4. A tomada de ação (Act) está relacionada ao tratamento de não conformidades via ações corretivas e à melhoria contínua dos sistemas de gestão.

Tanto a ISO 9001 quanto a ISO 22000 adotam essa mesma lógica, o que garante coerência na gestão, facilita a integração dos sistemas e assegura uma abordagem estruturada para o atendimento de requisitos, controle de perigos e aumento da eficácia organizacional.

Isso possibilita a construção de um sistema de gestão único, integrado (SGI) no qual a segurança dos alimentos não é tratada como um elemento isolado, mas como parte integrante da estratégia organizacional.

A ISO 22000 e a ISO 9001 não competem entre si, mas operam em camadas complementares.

A primeira garante que o produto seja seguro e a segunda assegura que ele seja entregue com qualidade, consistência e alinhamento às expectativas do cliente. Juntas, formam um sistema robusto, tecnicamente sólido e alinhado às demandas regulatórias e de mercado, tornando-se essenciais para organizações que buscam excelência no setor alimentício.

Leia também:

    1. Requisitos regulamentares e estatutários para atender a um Sistema de Gestão da Qualidade na indústria de alimentos;
    2. Por que existem tantas normas em Food Safety?;
    3. Gestão Estratégica em Food Safety.

 

Referências Bibliográficas:

  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR ISO 22000 – Sistemas de gestão de segurança de alimentos — Requisitos para qualquer organização na cadeia produtiva de alimentos. Rio de Janeiro: ABNT, 2026;
  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR ISO 9001 – Sistemas de gestão da qualidade — Requisitos. Rio de Janeiro: ABNT, 2026;
  • BERTOLINO, Marco Túlio. Gerenciamento da qualidade na indústria alimentícia: ênfase na segurança dos alimentos. Porto Alegre: Artmed, 2010;
  • CODEX ALIMENTARIUS COMMISSION. General Principles of Food Hygiene (CXC 1-1969). Rome: FAO/WHO, 2020;
  • FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. Food safety management systems: a practical guide for the food industry. Rome: FAO, 2011;
  • INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 22000:2018 – Food safety management systems — Requirements for any organization in the food chain. Geneva: ISO, 2018;
  • INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 9001:2015 – Quality management systems — Requirements. Geneva: ISO, 2015;
  • MORTIMORE, Sara; WALLACE, Carol. HACCP: a practical approach. 3. ed. New York: Springer, 2013;
  • SURAK, John G.; WILSON, Steven (ed.). The certified HACCP auditor handbook. 4. ed. Milwaukee: ASQ Quality Press, 2014.

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